quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Na hora da minha morte

O silencio dentro do quarto era mórbido, o corpo jazia no chão ao lado de uma poça de sangue, nas mãos da moça havia uma faca, os pulsos cortados, ela sangrou até morrer. Eu estava ali, em pé ao lado do corpo, do meu corpo, estava pálida e meus olhos estavam abertos. Abaixei para olha-los, estavam vazios, sem vida, mas de certa forma pareciam estar aliviados, finalmente em paz.
Em um canto do quarto havia uma mulher alta com um longo vestido preto, notei a sua presença um pouco antes de tudo ficar escuro, parecia triste e poderia até jurar que vi lágrimas escorrendo do seu rosto quando tudo acabou.   Paro de contemplar meu corpo caído e vou em direção a ela, quero lhe fazer perguntas, saber quem é, o que ela faz ali presenciando um momento tão intimo.
-Quem é você?- Pergunto. De perto ela parecia ainda mais bonita, ela me fitava com um ar de tristeza, seus olhos eram profundos, a sensação era de que se você olhasse muito para eles acabaria se afogando. Depois de um longo tempo respondeu.
-Acho que você já sabe a resposta não é?
-Você é a Morte não é?- acho que ela ficou impressionada por eu não expressar medo pois ela sorriu.
-Não, eu não sou a morte. Eu sou uma ceifeira, a morte é apenas uma passagem assim como a vida.
-Hum. – e um longo silencio pairou no ar. Vi os seus olhos se desviarem de mim e irem para outra direção.
-Tão jovem. Por que fazer isso com si próprio?
Percebi então que ela estava olhando para o meu corpo no chão, pude ver lagrimas querendo surgir no canto de seus olhos e pensei comigo “se ela soubesse”, comecei a lembrar das coisas horríveis que passei, do medo, da dor. Quando voltei dessas tristes lembranças percebi que ela me encarava, parecia querer uma reposta.
-Foi a única saída que eu vi.Não havia mais nenhuma porta.
-Ás coisas estavam tão ruins assim?Por que você não pediu ajuda? –as palavras saíram como uma suplica.
-Eu não sabia que os ceifeiros se importavam com os mortos que eles levam. E a resposta é sim, as coisas estavam péssimas e eu tentei mandar sinais para as pessoas à minha volta, mas ninguém percebeu, por que eles não se importam comigo. 
-Não seja egoísta e mimada menina. –ela parecia nervosa agora. –Sinais... Você tem que falar!Ninguém tem bola de cristal. E você diz que ninguém te ama, mas e o seus pais hein?Você já pensou na reação deles quando te virem morta sua egoísta.
Aquilo me acertou como um martelo, direto na cabeça, meus pais... Não tinha pensado nisso. Quando fiz aquilo só pensava na minha dor, de me livrar dela. Sentia-me culpada, será que iria para o inferno por isso? Entrei em pânico, comecei a chorar e em meio a soluços implorei para que ela me levasse de volta, mas ela ficou impassível, disse que não, que esse seria meu castigo, passar a eternidade com essa culpa.
Acordei ofegante, estava suada e tremendo, o sonho havia se tornado um pesadelo, o que era para ser uma coisa boa se tornou ruim. Olhei os meus pulsos, os cortes do dia anterior estavam bem visíveis, eu não queria mais aquela vida, estava cansada de sofrer. Daquele dia em diante me mantive firme e toda vez que pensava em ter uma recaída me lembrava daquele sonho, dos meus pais, da moça de preto. O que era frequente passou a ser semanal, depois uma vez no mês, com o tempo os cortes quase cessaram até que por fim cessaram.As vezes acho que o sonho foi real, que eu supliquei tanto que a ceifeira acabou cedendo, outras vezes chego a conclusão de que foi tudo armação do meu inconsciente que não aguentava mais aquela situação, mas não importa porque nunca mais vou deixar os meus problemas e medos governarem a minha vida e isso é uma promessa.

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