O silencio dentro do quarto era
mórbido, o corpo jazia no chão ao lado de uma poça de sangue, nas mãos da moça
havia uma faca, os pulsos cortados, ela sangrou até morrer. Eu estava ali, em
pé ao lado do corpo, do meu corpo, estava pálida e meus olhos estavam abertos. Abaixei
para olha-los, estavam vazios, sem vida, mas de certa forma pareciam estar
aliviados, finalmente em paz.
Em um canto do quarto havia uma
mulher alta com um longo vestido preto, notei a sua presença um pouco antes de
tudo ficar escuro, parecia triste e poderia até jurar que vi lágrimas
escorrendo do seu rosto quando tudo acabou. Paro
de contemplar meu corpo caído e vou em direção a ela, quero lhe fazer perguntas,
saber quem é, o que ela faz ali presenciando um momento tão intimo.
-Quem
é você?- Pergunto. De perto ela parecia ainda mais bonita, ela me fitava com um
ar de tristeza, seus olhos eram profundos, a sensação era de que se você
olhasse muito para eles acabaria se afogando. Depois de um longo tempo
respondeu.
-Acho que você já sabe a resposta
não é?
-Você é a Morte não é?- acho que
ela ficou impressionada por eu não expressar medo pois ela sorriu.
-Não, eu não sou a morte. Eu sou
uma ceifeira, a morte é apenas uma passagem assim como a vida.
-Hum. – e um longo silencio
pairou no ar. Vi os seus olhos se desviarem de mim e irem para outra direção.
-Tão jovem. Por que fazer isso
com si próprio?
Percebi então que ela estava
olhando para o meu corpo no chão, pude ver lagrimas querendo surgir no canto de
seus olhos e pensei comigo “se ela soubesse”, comecei a lembrar das coisas
horríveis que passei, do medo, da dor. Quando voltei dessas tristes lembranças
percebi que ela me encarava, parecia querer uma reposta.
-Foi a única saída que eu vi.Não
havia mais nenhuma porta.
-Ás coisas estavam tão ruins
assim?Por que você não pediu ajuda? –as palavras saíram como uma suplica.
-Eu não sabia que os ceifeiros se
importavam com os mortos que eles levam. E a resposta é sim, as coisas estavam
péssimas e eu tentei mandar sinais para as pessoas à minha volta, mas ninguém
percebeu, por que eles não se importam comigo.
-Não seja egoísta e mimada
menina. –ela parecia nervosa agora. –Sinais... Você tem que falar!Ninguém tem bola
de cristal. E você diz que ninguém te ama, mas e o seus pais hein?Você já
pensou na reação deles quando te virem morta sua egoísta.
Aquilo me acertou como um
martelo, direto na cabeça, meus pais... Não tinha pensado nisso. Quando fiz
aquilo só pensava na minha dor, de me livrar dela. Sentia-me culpada, será que
iria para o inferno por isso? Entrei em pânico, comecei a chorar e em meio a
soluços implorei para que ela me levasse de volta, mas ela ficou impassível,
disse que não, que esse seria meu castigo, passar a eternidade com essa culpa.
Acordei ofegante, estava suada e
tremendo, o sonho havia se tornado um pesadelo, o que era para ser uma coisa
boa se tornou ruim. Olhei os meus pulsos, os cortes do dia anterior estavam bem
visíveis, eu não queria mais aquela vida, estava cansada de sofrer. Daquele dia
em diante me mantive firme e toda vez que pensava em ter uma recaída me
lembrava daquele sonho, dos meus pais, da moça de preto. O que era frequente
passou a ser semanal, depois uma vez no mês, com o tempo os cortes quase
cessaram até que por fim cessaram.As vezes acho que o sonho foi real, que eu
supliquei tanto que a ceifeira acabou cedendo, outras vezes chego a conclusão
de que foi tudo armação do meu inconsciente que não aguentava mais aquela
situação, mas não importa porque nunca mais vou deixar os meus problemas e
medos governarem a minha vida e isso é uma promessa.
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